Entre os dias 21 e 23 de Fevereiro de 2025, decorreu o 10.º Encontro Nacional pela Justiça Climática, em Lisboa. A participação nesta iniciativa deu continuidade à aproximação entre colectivos, na qual a MUBi se vem envolvendo, nomeadamente através de encontros locais para fortalecer a união e colaboração contínua. Para memória futura, deixámos aqui o testemunho de dois encontros que decorreram no Porto e em Braga, no Inverno de 2024-2025.
Encontro no Porto
O primeiro encontro ocorreu a 14 de Dezembro de 2024, no Porto, na Associação Cultural Macaréu, e foi promovido colaborativamente pela XRPT – Extinction Rebellion Portugal, pela MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, pelo STOP Manifesta, pelo Centro do Clima e pela Rede Ecossocialista. Teve a participação de cerca de 30 pessoas, algumas a título individual, outras representando mais de uma dezena de organizações. Durante a manhã desse dia, a MUBi organizou um passeio em bicicleta, que partiu da Praça da República, passando por alguns locais de lutas sociais e ecológicas, onde pessoas envolvidas nas mesmas nos guiaram e partilharam o seu testemunho.
Na sede da Macaréu, após um almoço-convívio vegan, foram apresentadas duas organizações, o Centro do Clima e a Pagu – Associação Popular Cultural de Vila Nova de Gaia e uma proposta de acção conjunta relativa ao Plano Municipal de Acção Climática (PMAC) do Porto. A publicação deste plano é um dos requisitos da Lei de Bases do Clima, que deveria acontecer até Fevereiro de 2024. Contudo, tal ainda não aconteceu e espera-se que publicação e consulta pública ocorra no primeiro trimestre de 2025, com atraso de mais de 1 ano.



Na sequência do encontro, mais colectivos foram chamados a colaborar numa acção conjunta com os seguintes objectivos:
- Preparar um comunicado público transmitindo o nosso desagrado quanto ao atraso de publicação do PMAC e exigindo mais e melhor participação pública, com um debate alargado;
- Identificar bandeiras (reivindicações-chave) de políticas ambientais para as quais nos queremos mobilizar.
- Criar um debate político em que todas as candidaturas às autárquicas serão solicitadas a posicionar-se, antes de construírem o seu programa.
Como acção de sensibilização, planeou-se uma acção chamada “Carnaval do Clima”, com actividades a 1 e 2 de Março, no Porto, e a 3 e 4 de Março, em Braga. Este Carnaval é uma sátira às políticas ambientais, começando por ridicularizar os responsáveis pelo não-cumprimento da Lei de Bases do Clima e das Estratégias Nacionais de Mobilidade Activa Ciclável e Pedonal. Planeou-se o envolvimento de associações culturais e pessoas do meio artístico, que, pensamos, muito têm a ensinar e a dar aos activismos climáticos e particularmente à promoção da mobilidade activa.

Encontro em Braga
O segundo encontro decorreu em Braga, no fim-de-semana de 8 e 9 de Fevereiro e reuniu cerca de 40 participantes, estando representadas mais de uma dezena de associações.
No Sábado, dia 8, iniciámos as actividades no auditório da Biblioteca Municipal de Braga, onde representantes de cinco colectivos trouxeram temas como a estrutura interna das associações, os modos de governança nas políticas públicas, a recente lei dos solos e a mobilidade urbana em Braga. Uma representante da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso partilhou o ponto da situação do problema da mineração naquele lugar, que tanto se relaciona com a errónea e ineficaz tendência de continuidade de uma mobilidade maioritariamente assente no automóvel individual, agora eléctrico. A manhã terminou com um almoço vegan, organizado pelas pessoas dos colectivos locais e servido em modo volante na área aberta do centro comercial Olympus, onde se situa a Associação Observalícia. Durante a tarde, organizamo-nos em grupos para reflectir sobre formas de acção, partindo das preocupações de cada pessoa.
Emergiram quatro grandes temas: relações humanas, acção directa, políticas públicas e ainda narrativas e globalização. Entre as propostas discutidas, destacaram-se as seguintes:
- Acção concertada para dar visibilidade às temáticas da Justiça Climática durante a campanha das eleições autárquicas que acontecerão em Setembro/Outubro de 2025.
- Evolução destes encontros, no sentido de fortalecer os laços sociais entre pessoas e organizações participantes e de permitir aos movimentos ecologistas pela justiça climática «sair da bolha».
Para que os movimentos possam ganhar essa visibilidade, foi proposto: (1) que se fosse introduzindo formas de comunicação não dominantes, menos centradas no nível cognitivo e na expressão verbal, tais como a música e a dança; (2) que se aproximassem de artistas e associações culturais ou recreativas, particularmente que trabalhem com temáticas ecológicas, promovendo acções performativas de sensibilização; e (3) que se aproximassem da academia para promover o envolvimento de especialistas nas temáticas em apreciação.
No Domingo, dia 9, a associação Braga Ciclável organizou um passeio em bicicleta por vários locais de interesse ecológico e social da cidade, reforçando a importância da mobilidade activa para a liberdade, a justiça territorial e climática.



Consideramos que este encontro serviu como um ponto de partida importante para a articulação de grupos da região do Minho que abrange as sub-regiões do Minho-Lima, Cávado e Ave. Como forma de seguimento destas acções, surgiu a ideia de realizar um encontro minhoto e algarvio, em Faro, com associações das duas regiões.
Conhecer para colaborar, colaborar para fortalecer
Com estes dois encontros, percebemos, mais uma vez, que os obstáculos à justiça climática assumem diferentes formas, internas e externas, multiplicam-se rapidamente e exigem vigilância e acção contínuas. Estas iniciativas permitem-nos aumentar a democracia interna participativa e a difusão em rede interseccional da nossa acção colectiva. Saímos destes encontros com um sentimento de conexão e empoderamento, seguros de que juntos somos mais fortes, gerando inteligência e sensibilidades colectivas, podemos regenerar-nos internamente, reequilibrando a acção individual com a acção colectiva. Este processo é lento, mas consistente. Porém, ainda no início do caminho, sentimos que os pequenos passos estão a dar frutos. É possível e eficaz reforçar laços de solidariedade, fundamentais para a colaboração interpessoal e entre organizações.
Estiveram representados nestes encontros os seguintes grupos:
- ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural
- Associação Famalicão em Transição
- Associação Portuguesa de Educação Ambiental
- AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia
- Braga Ciclável
- Coletivo 6 2 4
- Metaterra
- Movimento Peticionário Régulo Magauanha
- MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta
- Núcleo pela Justiça Climática da Universidade do Minho
- Quercus
- Observalícia – Observatório sobre Alimentação, Tecnologia e Ecologia
- Póvoa em Transição
- Rede para o Decrescimento
- SOS Árvores Braga
- UDCB – Unidos em Defesa de Covas do Barroso
- XRPT – Extinction Rebellion Portugal