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Pormenor da solução actual para os ciclistas na Av. Liberdade (Foto: MUBi)

Marjolein de Lange e Jeroen Buis são dois peritos em assuntos de mobilidade urbana da Dutch Cycling Embassy. Estiveram em Setembro em Lisboa, a convite da Câmara Municipal de Lisboa e da Embaixada Holandesa, para visitar a cidade e apresentar a workshop “Think Bike”, uma das actividades realizadas no âmbito da Semana Europeia da Mobilidade.

Um dos objectivos da workshop, foi discutir de que forma o novo modelo de circulação na Avenida da Liberdade poderia ser desenhado, de forma a ser seguro e confortável para os ciclistas que nele pedalassem. De facto,  durante a workshop houve um grupo de trabalho (constituído por alguns dos participantes da workshop) que esteve a discutir esse tema. Toda a discussão foi orientada pelos peritos da Dutch Cycling Embassy, que tentavam alertar o grupo de trabalho para erros na sua solução e guiá-los para soluções melhores.

O relatório da workshop foi enviado à CML após a workshop. A pedido da MUBi, o mesmo relatório foi agora tornado público no site da Dutch Cycling Embassy. As conclusões do grupo de trabalho e seus orientadores (Marjolein de Lange e Jeroen Buis) contradizem de forma clara a solução que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) acabou por implementar poucos dias depois. O relatório emitido pelos holandeses não recomenda a solução que a CML seguiu, muito pelo contrário.

Mais precisamente, o grupo de trabalho conclui que a única solução segura e confortável para os ciclistas seria permitir que os ciclistas circulassem de um topo da Avenida ao outro pelas laterais. Ou seja, apesar dos automóveis que circulam pelas laterais serem proibidos de percorrer as laterais em toda a sua extensão, as intersecções seriam adaptadas para que, exclusivamente, os velocípedes pudessem seguir topo-a-topo pelas laterais.

Mais: o grupo propõe também que as laterais, apesar de serem unidireccionais para o tráfego automóvel, permitam que os velocípedes circulem em ambos os sentidos. Para que tal seja possível, bastaria eliminar uma fila de estacionamento nas laterais – algo que, aliás, constava do modelo originalmente proposto pela Câmara Municipal de Lisboa (CML)  -, e usar o espaço libertado para criar uma nova ciclo-faixa no sentido inverso ao do tráfego automóvel.

Curiosamente, o grupo de trabalho descartou todas as soluções pelo corredor central que discutiu, por razões de segurança e conforto. Poucos dias depois da workshop, foi precisamente isso que a CML decidiu fazer – empurrar os ciclistas para uma pseudo-faixa, perigosa e desconfortável na berma do corredor central.

Como é claro no relatório recentemente publicado pela Dutch Cycling Embassy no seu site, em nenhum lado o parecer dos peritos recomenda ou apoia a solução que a CML acabou por seguir. Aliás, como explicámos acima, o grupo de trabalho que os técnicos holandeses orientaram durante a workshop, acabou por concluir precisamente o contrário daquilo que a CML continua a defender.

A MUBi volta, pois, a insistir: a solução actualmente implementada na Av. Liberdade tem erros técnicos grosseiros, que põem em causa a segurança dos ciclistas e requerem correcção urgente. Infelizmente, após carta enviada em Outubro à Vereação da Mobilidade, Presidente da CML e Presidente da Assembleia Municipal, tudo continua na mesma.

Só com medidas baseadas em critérios técnicos rigorosos será possível uma Avenida segura e confortável para peões e ciclistas. Infelizmente, esta intenção que, desde cedo, a CML anunciou como seu objectivo, e que a MUBi partilha e apoia, tarda em ser concretizada no que diz respeito aos ciclistas. É urgente corrigir os erros técnicos do modelo de circulação de velocípedes na Avenida.

De seguida transcrevemos o extrato do relatório da Dutch Cycling Embassy com as conclusões do grupo de trabalho que abordou o tema da Av. Liberdade.

Esboço da solução do grupo de trabalho orientado pelos peritos da Dutch Cycling embassy para a Av. Liberdade. Qualquer solução pelo corredor central foi descartada pelo grupo de trabalho, por razões de segurança e conforto (foto: Dutch Cycling Embassy).

Group 3 also worked on av. de Liberdaded. First they discussed the possibility of providing cycling facilities at the main central road. The option of making a shared bus-bike lane was discussed, but the group felt that that was not a very safe and comfortable option for cyclists. Then cycle tracks were proposed, but because av. de Liberdade is a cultural heritage street the curbs cannot be changed, and hence, even with narrowing down the traffic lanes to a minimum, the cycle tracks would end up rather narrow. Also, someone in the group mentioned, it is not allowed (because of the cultural heritage and special events) to put ‘obstacles’ such as curbs or dividing verges on av. de Liberdade. This makes creating segregated cycle tracks at the main road of av. de Liberdade de facto impossible.
Therefore the group decided to study the possibility of providing cycling facilities at the laterals of av. de Liberdade. Currently there is parking at both sides of the laterals. By taking out car-parking at one side of the laterals it is possible to create a contraflow cycle lane (or even a segregated cycle track) and a shared lane for car traffic and cyclists. Of course an important part of the design will be the design of the intersections. This was not discussed in the group.

3 de Dezembro

Só com medidas baseadas em critérios técnicos rigorosos será possível uma Avenida segura e confortável para peões e ciclistas. Infelizmente, esta intenção que, desde cedo, a CML anunciou como seu objectivo [4], e que a MUBi partilha e apoia, tarda em ser concretizada no que diz respeito aos ciclistas. É urgente corrigir os erros técnicos do modelo de circulação de velocípedes na Avenida.

2 Responses to Dutch Cycling Embassy does not support the new scheme in Av. Liberdade

  1. Fernando Magalhães says:

    …ou algo semelhante! É isso mesmo. O que se passa, e digo-o com conhecimento de causa, uma vez que sou arquiteto de um município do norte, é que os técnicos a quem é cometida a elaboração de estudos e pareceres na área da mobilidade (arquitetos, engenheiros e outros) não tem nem formação nem sensibilidade para o efeito. Trata-se de uma vertente do desenho urbano que não se aprende nas universidades, sobre a qual só há algumas normas e diretivas técnicas estrangeiras, que só os mais curiosos consultam. Tendencialmente projecta-se uma ciclo faixa ou uma ciclovia com absoluta ligeireza. Há 15 anos que me dedico ao desenho rodoviário e pertenço aos curiosos e sou complementarmente, de longa data, um ciclista ativo e participativo. O parecer da Dutch Embassy é quase óbvio e eu teria todo o gosto em subscrevê-lo. Disponho-me pois, para participar em grupos de trabalho para a acompanhanento de projectos e elaboração de pareceres.

  2. Arrenda-PT says:

    À boa maneira portuguesa, fazem-se estudos e pedem-se pareceres, e depois escolhe-se a solução proposta pelo colega de partido, ou algo semelhante… 🙁

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