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Fotografia: Braga Ciclável

Como vem sido habitual todos os verãos a MUBi recebe muitos pedidos de esclarecimentos de Jornalistas.

O Jornal “i” enviou-nos estas perguntas e respondemos da seguinte forma:

 

Quais são as principais causas dos acidentes com ciclistas?

Baseado em estudos internacionais, sabemos que a velocidade excessiva e inadequada é o problema principal no que diz respeito à segurança rodoviária (1). Sabemos, também, que o excesso de velocidade é o primeiro motivo em cerca de um terço das mortes e um fator agravante em todas as colisões (2).

Infelizmente em Portugal os sinistros não são analisados com a profundidade necessária para sabermos exactamente as suas causas. No que diz respeito aos sinistros com utilizadores de bicicletas, as causas variam muito conforme se trate de um contexto dentro ou fora das localidades e também da idade das vitimas – sabemos empiricamente, por exemplo, que existe uma elevada proporção de fatalidades de ciclistas idosos em estradas rurais ao fim da tarde – mas tal carece confirmação e estudos mais aprofundados. Em zonas urbanas as intersecções são particularmente perigosas e o chamado “gancho à direita” (o condutor do automóvel ultrapassa o ciclista à esquerda e vira para a direita abalroando o ciclista na intersecção) é algo que acontece que alguma frequência.

(1) Aarts, L. & van Schagen, I. (2006). Driving speed and the risk of road crashes: a review, Accident Analysis and Prevention, vol. 38, issue 2, p: 215-24.
(2) OECD/ECMT (2006) Speed Management.

 

Quais são as reclamações do lado dos ciclistas em relação à condução dos automobilistas? O que é que irrita mais os ciclistas?

Essencialmente velocidades excessivas. A MUBi realizou uma breve contabilização de velocidades na Avenida Infante Dom Henrique em Lisboa (limite de velocidade 50 km/h dentro de localidade) tendo verificado que 95% dos carros circulavam acima do limite de velocidade (50 km/h), sendo que metade circulavam acima de 70 km/h. A falta de cuidado e observação do Código da Estrada nas ultrapassagens é também um problema grave (ao ultrapassarem um ciclista os automobilistas, para além de terem que reduzir as velocidades, têm que respeitar uma distância mínima de 1,5 metro do ciclista e ocupar a via adjacente quando ela existe).

Houve uma mudança efectiva desde a última mudança do código da estrada?

Existe um elevadíssimo desconhecimento dos condutores portugueses sobre as alterações do Código da Estrada, e por isso não é possível obter o efeito positivo desejado sobre o respeito pelos utilizadores vulneráveis. Segundo um estudo da GfK, desenvolvido para a seguradora Direct, que teve como objetivo analisar o conhecimento sobre as novas regras de condução, em vigor desde o início do ano passado, os condutores portugueses não conhecem as novas regras do Código da Estrada. Quando questionados sobre as recentes alterações, 97% dos portugueses com carta erraram mais de metade das respostas. Sendo que 92% dos portugueses encartados afirmaram ter conhecimento das alterações feitas ao Código de Estrada.

O que falta mudar na sociedade portuguesa para sermos “mais amigos” das duas rodas?

Mais civismo e mais fiscalização. A ANSR e as autoridades policiais praticamente não têm feito nada para fiscalizar o respeito pelos utentes vulneráveis. Por exemplo, tanto quanto temos conhecimento, até hoje apenas uma pessoa foi multada por realizar uma “razia” a um ciclista (não respeitar a distancia mínima de 1,5 m).

Segundo a Prevenção Rodoviária Portuguesa quase metade dos automobilistas observados (46%) não utilizou o pisca ao mudar de direcção e 17% desobedeceram o sinal “stop”, mesmo havendo carros na via em que iriam entrar. Com a rua desimpedida, a taxa sobe para 85%. Ainda segundo o mesmo estudo: quase 90% dos condutores fiscalizados excedia a velocidade máxima nas localidades, em zonas sem controlo por semáforos. O registo desce para 36% nas vias com o controlo por semáforos. Um em cada quatro condutores não cede passagem aos peões nas passadeiras. Este estudo da PRP mostra ainda que quase 40% dos condutores passou um sinal vermelho nos primeiros três segundos após a mudança de cor, uma situação que é ainda mais grave nos motociclos. Neste caso, a percentagem ultrapassou os 60%.

No entanto, e de acordo com os dados do relatório da ETSC (European Transport Safety Council) e os dados da ANSR, Portugal é o último país da Europa em número de condutores multados por excesso de velocidade por 1 000 habitantes; Comparado com países com os melhores indicadores na Europa, Portugal tem dezenas de vezes menos multas per capita por excesso de velocidade (ex. os Países Baixos e a Áustria já em 2008 tinham cerca 500 condutores multados por ano por excesso de velocidade por cada 1 000 habitantes, em 2014 Portugal tinha 25 por 1 000 habitantes).

Na sociedade Portuguesa é recorrente os ciclistas serem acusados de não respeitarem as regras e é defendido que é necessário haver uma “responsabilidade partilhada” na estrada. Quem faz esta acusação ainda não percebeu a diferença do risco de vida causado aos outros, entre conduzir no interior da caparaça de um veículo com toneladas de peso e que se desloca a velocidade elevada, com o risco causado por um veículo que não pesa mais que 15 kg e é movido a pedais. A defesa da “responsabilidade partilhada” faz ainda parte de uma mentalidade retrógrada e da falta de civismo na estrada que ainda temos em Portugal. O conceito de “Responsabilidade Partilhada” contradiz o espírito e a letra da revisão do novo Código da Estrada na definição de “Utilizador Vulnerável” e é um conceito felizmente ultrapassado na maior parte da legislação europeia.

Portugal é o terceiro maior produtor de bicicletas… nota que nas ruas há mais gente a deslocar-se em bicicleta?

Por observação empírica, temos assistido nos últimos anos a um grande aumento do uso da bicicleta. Fenómeno que tem se assistido em quase toda a Europa. No entanto, e infelizmente, também não existem dados estatísticos sobre a utilização efectiva da bicicleta. Sabemos que muita da produção nacional se destina a exportação e são bicicletas que não circulam nas estradas portuguesas.

 


Em relação às suas observações sobre os dados de sinistralidade durante os três primeiros mês deste ano:

  • são números muito pequenos e o período muito breve, de forma a ter qualquer relevância estatística. Repare que no mesmo período em 2013 houve também 6 mortos. A sinistralidade em bicicleta depende de muitos factores um deles a meteorologia durante o período em análise.

É fundamental não confundir os números absolutos de acidentes e vítimas com a noção de risco:

  • falta quantificar o aumento uso da bicicleta para perceber se o uso da bicicleta está mais seguro ou mais perigoso;
  • de qualquer forma, é expectável que 2015 seja um ano com mais vítimas entre utilizadores vulneráveis (assim como entre outros utilizadores motorizados) devido ao aumento do tráfego automóvel. Esse facto vem hoje confirmado pela Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária do comando operacional da GNR:http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=4734093

Risco é a probabilidade que um utilizador de um meio de transporte tem de estar exposto ao risco de ter um sinistro. O risco dos utilizadores deve ser medido, tendo em conta alguma forma de exposição ao risco (geralmente o número de quilómetros percorridos). Desta forma, seria fácil verificar aquilo que é normal acontecer: quanto maior o número de ciclistas e maior o número de quilómetros realizados de bicicleta e a pé menor é o risco para todos (“segurança pelos números”). Por isso, mesmo numa situação em que haja um aumento do número absoluto dos sinistros com ciclistas, podemos estar provavelmente perante um benefício social e não necessariamente perante um problema.

 

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O resultado final foi este:

 

Jornal i Agosto 2015

 

One Response to A “Silly Season”, a MUBi e os meios de comunicação social

  1. António says:

    Os jornalistas, pela crise que afeta o setor dos mídia, tornaram-se mais vendidos que as mais pérfidas do antigo Cais do Sodré. Acho que vai restando o Pública, porque pela lei do facebook informativo (“ah e tal eu li no outro dia no facebook…”) a tendência é para que os jornais fiquem todos como o Correio da Manhã.

    Recomendo aos membros da MUBi que simplesmente deixem de responder, façam como faz o PCP aos órgãos de comunicação social fascistas, ou como faz o líder do CDS quando recebe convites de entrvista do Avante!

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