Por vezes a MUBi recebe protestos de peões em relação aos ciclistas. Publicamos hoje uma troca de e-mails que esperemos que ajude a melhor nos entenderemos no futuro. É um assunto que temos a obrigação de tomar muita atenção. A promoção do uso da bicicleta não pode ser conseguido ocupando o frágil património pedonal das nossas cidades. Comportamentos irresponsáveis por parte de ciclistas também não podem ser desculpados, mesmo sabendo que na maior parte das vezes são consequência do medo de circular de bicicleta entre os carros. Peões, ciclistas e motoristas têm que perceber que o objectivo que nos une é comum: qualidade de vida nas cidades de Portugal. E para que se atinja este fim temos que conseguir que as nossas ruas sejam menos perigosas para todos.
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Muito bom dia
Agradecia o favor de me informar se é possível andar de bicicleta utilizando os passeios.
Na verdade considero mesmo perigoso! Um terrorismo do passeio. A maioria dos ciclista é muito descuidada e sente-se protegida por ir na bicicleta. Como, cumulativamente, a velocidade da marcha é inferior à da bicicleta, os transeuntes, sobretudo quem tem crianças, sofre uma chicana por parte dos ciclistas de grande risco para o peão. Não esquecer que o peão está de “peito-aberto” e nunca sabe de onde vêm eles! Podem vir, repentinamente, da esquerda, da direita, de trás e aparecer pela frente quando menos se espera. Considero isto, sem aplicabilidade de qualquer regra de transito, um verdadeiro ato de terrorismo. Fica claro que quem precisa de seguro são os peões … contra ciclistas!
Na espera do vosso esclarecimento.
Cara Elisa ***,
Respondendo rapidamente à sua primeira pergunta: não!
Respondendo de forma curta ao seu e-mail: tem total e absoluta razão em tudo o que afirma.
Circular de bicicleta sobre o passeio é muito perigoso para os peões, especialmente crianças e idosos, mas não só. Tanto ou mais grave que as situações de colisão, são as situações de quase-colisão que assustam e causam um verdadeiro incomodo a todos os peões. De facto, um dos problemas é que as estatísticas publicadas deste tipo de acidente, não são mais do que a ponta do icebergue de um fenómeno que infelizmente tenderá a agravar-se no futuro – só são registados os casos mais graves que acarretam hospitalização e ficamos por saber a verdadeira dimensão deste problema quando pequenas, mas inaceitáveis lesões, raramente são reportadas.
Ainda por cima, facto infelizmente pouco conhecido dos ciclistas, circular nos passeios é extremamente perigoso para ciclistas. O perigo mais subtil, mas mais frequente e grave, é nos cruzamentos. Quando interagem com o restante tráfego (geralmente, e também ilegalmente, usando as passadeiras de peões) os ciclistas fazem-no em contra-mão e com velocidades até três vezes superiores à de um peão. Mesmo a circulação no passeio tem perigos subtis e não intuitivos, como a natural e compreensível errância do peões, a saída de garagens e os inúmeros obstáculos que infelizmente são frequentes nos passeios portugueses. Infelizmente estes perigos são contra-intuitivos e a circulação pelo passeio é ainda percecionada por alguns ciclistas, em especial os iniciados, como mais segura. O excesso de automóveis nas cidades Portuguesas e a sua excessiva velocidade acaba por os levar usar o passeio como refugio, quando de facto, e na maior parte dos casos dos casos, estão a colocar os outros e a si próprio em situação de perigo.
Infelizmente muitas autarquias portuguesas pioram este problema, colocando ciclovias sobre os passeios. Recentemente a MUBi, em conjunto com outras associações, já protestou e conseguiu junto da Câmara Municipal de Lisboa um compromisso que as ciclovias não serão mais colocadas no passeio no futuro e que os erros já feitos serão corrigidos.
Finalmente e provavelmente o que despoletou o seu e-mail: a questão do seguro. É de facto um problema delicado que exige melhor reflexão de todos. A MUBi defende que a lei deverá garantir que a responsabilidade de prudência deverá ser de quem anda mais rápido, arranca mais rápido, tem maior massa, e causa mais danos. É esse o espírito e a letra da revisão do Código da Estrada, que assim se coloca a par com a legislação do resto da Europa. E por isso, sem dúvida nenhuma, numa colisão entre um peão e uma bicicleta a responsabilidade ética é sempre do ciclista e nos casos de culpa óbvia (por exemplo, a circulação da bicicleta no passeio) a responsabilidade civil e penal é também do ciclista. Dito isto, com toda a clareza, resta o problema se o ciclista deverá ter seguro e se este deverá ser obrigatório. Como deve ter lido a MUBi considera que a obrigatoriedade do seguro para ciclistas não faz sentido.
Perante este problema temos que ter também a noção das proporções do problema. O número de veículos motores sem seguro é enorme e com tendência para aumentar – segundos os últimos números publicados haverá cerca de 20,000 veículos motores a circular sem seguro e cerca de 50,000 sem Inspeção Obrigatória. Existem mais de 5,000 acidentes por ano em Portugal que envolvem veículos motores sem seguro – acidentes esses que são cobertos pelo Fundo de Garantia Automóvel. Mesmo que nenhum ciclista tenha seguro (o que está longe de ser verdade), como pode imaginar os danos humanos e materiais causados por estes acidentes que envolvem veículos motores sem seguro, são incomparavelmente maiores que os custos que os ciclistas causam aos peões. Não sendo de forma alguma uma desculpa para ignorar o problema, aponta para que uma das respostas possível poderá ser alargar o âmbito de cobertura do Instituto de Seguros de Portugal aos ciclistas não cobertos por seguro contra terceiros – de notar que nestas circunstâncias e modelo, mesmo que o peão seja de imediatamente coberto pelo ISP, o ciclista ficaria sempre obrigado a reembolsar, com juros, os montantes gastos. Resta-nos agradecer o contacto e as preocupações manifestadas.
Com os nossos melhores cumprimentos,
MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta
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Muito Bom Dia.
Não sabe como agradeço o fato de me ter respondido, rápido e aduzindo largas explicações que tão úteis me são!
Reconheço que a enorme irritação que pressentiu em mim – o verão deu “força” aos ciclistas que circulam nos passeios em situação de perigo – não me deixou ver o lado interessante que me abriu que é, claro, o de que os ciclistas também correm perigo! Verdade LaPaliciana pois é certo que quem se mete nas situações também pode “levar”!
Não na verdade não foi o seguro que me fez pensar! Apesar de trabalhar na CGD e as Seguradoras ainda não terem sido vendidas, não foram os seguros o meu detonador. Foi, sim, o desadequado que me pareceu o encontro dos dois utentes, caso se pudesse andar nos passeios, por isso considerei que quem precisaria de seguro seriam os peões.
Mais uma vez, muito grata.
Elisa ****
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Cara Elisa ****,
Muito obrigado pela sua simpática resposta. Muito nos agrada que o e-mail tenha ajudado a esclarecer a nossa posição e a ver o assunto com outros e renovados olhos. Pela nossa parte prometemos continuar a fazer todos os esforços para defender os mais frágeis.
Sempre ao dispor.
MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta
